O governo federal gasta R$ 2,5 trilhões por ano. Onde vai esse dinheiro? Quanto é obrigatório? E por que é tão difícil cortar?
O governo federal brasileiro gastou R$ 2,47 trilhões em 2024. É um número grande o suficiente para ser difícil de visualizar — equivale a cerca de 22% do PIB, ou R$ 11.600 por brasileiro. Mas o que exatamente está dentro desse número?
A resposta revela muito sobre por que o debate fiscal brasileiro é tão complicado — e por que cortar gastos é muito mais difícil do que parece nos discursos políticos.
Cerca de 93% do gasto federal é obrigatório — determinado por lei, por mandatos constitucionais ou por contratos. Isso inclui a Previdência Social (cerca de 40% do total), o funcionalismo público (cerca de 15%), transferências para estados e municípios (cerca de 12%), e programas sociais como o Bolsa Família (cerca de 5%).
Sobra apenas 7% de gasto discricionário — o que o governo pode, em tese, cortar sem mudar a lei. Mas mesmo dentro desse 7%, há gastos que são politicamente muito difíceis de reduzir: investimentos em infraestrutura, custeio de hospitais federais, manutenção de universidades.
A rigidez do gasto público brasileiro é em grande parte constitucional. A Constituição de 1988 criou um sistema de direitos sociais amplos e vinculou receitas a despesas específicas de forma que tornou muito difícil fazer ajustes sem emenda constitucional — o que exige maioria qualificada no Congresso.
"Não é que o governo não queira cortar. É que a maioria dos gastos tem um dono — um grupo de interesse, uma categoria profissional, um ente federativo — que vai ao Congresso defender sua fatia." — Economista do setor público, em entrevista à redação
A solução de longo prazo passa por reformas estruturais que reduzam a rigidez orçamentária — reforma administrativa, revisão de vinculações constitucionais, racionalização de benefícios tributários. Nenhuma dessas reformas é fácil. Todas exigem capital político que governos tendem a gastar em outras prioridades.
Doutora em economia do desenvolvimento pela USP. Fundadora da Perspectiva Econômica.