O Brasil tem um dos maiores spreads bancários do mundo. Não é coincidência — é o resultado de décadas de política que favoreceu a concentração do setor financeiro.
O spread bancário brasileiro — a diferença entre a taxa que os bancos pagam para captar dinheiro e a taxa que cobram para emprestar — é um dos maiores do mundo. Em 2025, o spread médio das operações de crédito livre está em torno de 25 pontos percentuais ao ano. Para comparação, nos Estados Unidos esse número é inferior a 5 pontos.
Essa diferença não é acidental. É o resultado de décadas de política econômica que, deliberada ou inadvertidamente, favoreceu a concentração do setor bancário e criou barreiras à entrada de novos competidores.
Os cinco maiores bancos do Brasil — Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa e Santander — controlam mais de 80% dos ativos do sistema financeiro. Esse nível de concentração é incomum mesmo entre países emergentes. E concentração, em qualquer mercado, tende a reduzir a pressão competitiva sobre preços.
Mas a concentração por si só não explica tudo. O spread bancário brasileiro é alto mesmo quando comparado a outros países com sistemas financeiros concentrados. Há outros fatores: a inadimplência historicamente elevada, que os bancos embutem no preço; os compulsórios altos, que reduzem a capacidade de emprestar; e os tributos sobre operações financeiras, que encarecem o crédito.
A entrada das fintechs e dos bancos digitais nos últimos anos criou alguma pressão competitiva, especialmente no crédito pessoal e nos pagamentos. O Pix reduziu drasticamente o custo das transferências. O Open Finance, ainda em implantação, pode aumentar a portabilidade de dados e reduzir as barreiras de troca de banco.
Mas o spread nas modalidades mais relevantes — crédito empresarial, financiamento imobiliário, crédito rural — continua alto. E enquanto a Selic permanecer elevada, os bancos têm pouco incentivo para competir agressivamente por clientes de crédito quando podem ganhar dinheiro facilmente com títulos públicos.
Economista com especialização em regulação financeira. Trabalhou no Banco Central por oito anos antes de migrar para a pesquisa independente. Colabora com a Perspectiva Econômica desde 2022.